Coringa (Joker) | Crítica sem spoilers

Coringa crítica sem spoilers
Coringa/Warner Bros/Divulgação

O filme de Todd Philips e Joaquin Phoenix é tudo isso, sim

Coringa é o filme dos desconfortos. A sensação de descompasso é transmitida tanto por conta das escolhas da direção como por enquadramentos mais fechados e muitas vezes até emoldurados, quanto pela temática que ele aborda. É, sim, um “filme de super-herói”, mas é bem diferente de tudo o que vimos até agora. O caminho escolhido para contar esta história segue um pouco os passos de Logan, porém, ele vai além, já que se trata de um vilão tão complexo quanto Arthur Fleck.

O longa é dirigido por Todd Philips e conta com Joaquin Phoenix no papel principal. Se trata de um estudo de uma personagem, Arthur Fleck é um homem de meia-idade com transtornos psicológicos e que luta cotidianamente para se integrar à sociedade despedaçada de Gotham.

No início, em traje completo de palhaço, Arthur está em frente a uma loja em uma avenida congestionada, onde foi contratado para carregar uma placa que diz “everything must go” (“tudo tem que ir”). Então, um grupo de adolescentes rouba a placa, o atrai para um beco e espanca o homem. Essa não será a primeira vez que Fleck será espancado ou mesmo passado para trás. Coringa tende para um estudo da loucura e da sociedade, e como as duas se relacionam.

Todos os elementos vividos pelo personagem, tanto a questão da marginalidade social, do esquecimento e abandono da cidade, como as experiências pessoais, tudo isso irá contribuir para a construção deste indivíduo. Elementos sociais e subjetivos se misturam e, por mais que o público torça para que as coisas fiquem bem, nós já sabemos onde isso vai culminar e no vilão cruel que nascerá. É como se o filme usasse a loucura do personagem como recurso narrativo e nada é exatamente o que parece.

Coringa a conta a história de uma relação complexa entre sociedade e indivíduo. Arthur, em alguma medida, deseja se conectar com seu meio e com outras pessoas, mas não consegue, pois está longe demais, assim como o personagem Norman Bates, de Psicose, e muitos outros. Ele é alguém que, ao passo em que tenta se aproximar de uma normalidade estabelecida, tem todas as suas tentativas frustradas e, assim, toma consciência de que seu esforço está condenado. Então, ele transforma tudo em uma ‘piada’ que só ele entende.

Coringa crítica sem spoilers
Coringa/Warner Bros/Divulgação

Durante duas horas de filme, Arthur, um palhaço profissional e aspirante à comediante de stand-up que vive com sua mãe doente (Frances Conroy) em um apartamento decadente (assim como toda Gotham), oscila entre o centro e a margem do nosso “visor psicológico”. Ele está no coração sombrio de todas as cenas, da mesma forma que Travis Bickle estava em Taxi Driver, há um certo apelo para que a audiência seja conduzida pela trama de Arthur.

Coringa é ambientado em 1981, em uma Gotham que estranhamente se aproxima do que era Nova York naquela época, cheia de pichações, lixo por todo lado, infestação de ratos e por aí vai. Também existem elementos de O Rei da Comédia, também do diretor Scorsese, que conta a história de um comediante tentando ter sucesso e a reflexão a respeito do poder que quem está em frente às câmeras pode exercer sobre a população. Com essas referências, o diretor se torna um pouco dependente de suas inspirações, mas permanece fiel à lógica desesperada da infelicidade do protagonista. Dentro desse esquema, ele cria uma obra psicologicamente deslumbrante, que fala de seu tempo, da política sem esperança e do tipo de ódio que surge de sonhos esmagados.

A Construção da Risada

A resposta de Arthur para quase tudo é rir. Por mais que seja definido que as risadas são resultado de uma condição neuroatípica chamada de Afeto Pseudobulbar, se trata de uma característica constituidora da narrativa em Coringa. Phoenix conseguiu construir uma vasta coleção de gargalhadas artificiais: uma risada delirante e estridente, uma entusiasmada, uma outra que é praticamente indistinguível de um soluço etc.

Em cada caso, o riso é um ato que se manifesta como fingimento. O que ele expressa não é alegria, mas o fato de que Fleck não sente nada, como se estivesse vazio por dentro. É um homem amargo de lugar nenhum à beira de um colapso e isso se evidencia em diversos momentos como quando vemos suas anotações em um caderno: “espero que minha morte seja mais lucrativa que minha vida” ou “a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você reaja como se não tivesse”.

O Perigoso Nascimento de um Símbolo

A personalidade do vilão é tirada do campo subjetivo e é colocada à luz, ou seja, o filme não tem nenhuma preocupação em se esconder e tentar amenizar qualquer mensagem que pretende transmitir. Nas primeiras cenas, vemos um Arthur encolhido, com as costas arqueadas, parecendo realmente desconfortável na pela que habita.

No entanto, conforme a narrativa avança e vamos acompanhando a psicopatia – tão característica do vilão mais famoso dos quadrinhos – aflorar, a estética do personagem muda para cores mais vibrantes, para um andar mais confiante, para danças menos tímidas e tudo isso em planos fotográficos mais abertos, sem grades, telas ou enquadramentos que nos separam do Coringa. A trilha acompanha essa progressão e adota tons mais fortes.

Justamente por acompanhar essa mudança e todos obstáculos que Fleck enfrentou até se tornar o Coringa, passando pela compreensão de sua origem e construção de personalidade, é que mora o real perigo da identificação do público. Nós vemos os acontecimentos pelos olhos de Arthur e essa confusão em não saber distinguir o certo do errado nos coloca em uma posição de muitas vezes aceitar suas ações cruéis e, até mesmo, conseguir justificá-las. É o perigoso nascimento de um símbolo.

Coringa crítica sem spoilers
Coringa/Warner Bros/Divulgação

Coringa administra o feito ágil de contar a história de origem do Coringa como se fosse sem precedentes. Entretanto, sentimos um formigamento quando Bruce Wayne entra em cena. Ele está lá mais como um presságio do que como um elemento de força. E sentimos uma emoção profundamente perturbada quando Arthur, tendo liberado um outro lado de sua raiva, surge usando maquiagem borrada, cabelos verdes, um colete laranja e um terno cor de ferrugem.

No momento em que ele dança na longa escada de concreto, percebemos sua insanidade transcender. Quando o acompanhamos no talk show que o humilhou anteriormente, vemos um monstro renascido com um sorriso e de algum jeito permanecemos ao seu lado. Isso porque o filme faz algo que flerta com o perigo e, nestes momentos, nós oscilamos.

O longa representa a dor, uma espécie de aperto e ansiedade e por isso pode apresentar alguns gatilhos para quem estiver em uma situação de vulnerabilidade. Por isso, não recomendamos que você assista caso esteja passando por alguma situação parecida. Procure ajuda.

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