De Pernas Pro Ar 3 |O filme tem seus tons progressistas, mas falha ao tentar ser feminista

De Pernas Pro Ar 3/Paris Filmes/Reprodução
De Pernas Pro Ar 3/Paris Filmes/Reprodução

Com a temática da competição feminina e a questão do protagonismo das mulheres, o longa estrelado por Ingrid Guimarães não consegue fugir da caricatura da “girl boss” e ainda deixa o público confuso a respeito de pequenos abusos que a personagem sofre

O terceiro filme da franquia chega com tudo aos cinemas brasileiros desbancando inclusive filmes aguardados, como o Shazam da DC. Dirigido por Julia Rezende, De Pernas pro Ar 3 decide se aprofundar em temas que envolvem o fato de ter uma personagem feminina autossuficiente como protagonista. 

Descompassos

De Pernas Pro Ar 3 tem o roteiro assinado pela própria Ingrid, Rene Belmonte e Marcelo Saback. A trama gira em torno da aposentadoria voluntária de Alice quando ela percebe que passou bastante tempo longe da família e acabou perdendo momentos importantes do desenvolvimento dos filhos. Até aqui nada demais, visto que este é um drama comum que cerca muitas mulheres e, por isso, é importante que seja retratado e discutido.

De Pernas Pro Ar 3/Paris Filmes/Reprodução

Mas a situação fica complicada quando o afastamento de Alice do contexto familiar por conta da sua empresa, Sex Delícia, causa uma inversão nos papéis desempenhados normalmente na sociedade: o pai é quem passa a maior parte do tempo com as crianças e é responsável por grande parte da educação delas. Este fato tenta trazer um elemento inovador e progressista para a história, mas acaba reforçando alguns estereótipos perigosos e coloca muitas vezes a protagonista como “a louca do trabalho” que não tem tempo para os filhos e a figura paterna acaba enaltecida simplesmente por desempenhar a função que a maioria das mulheres exerce há muitos e muitos anos. Isto, acaba passando uma falsa imagem de que feminismo é, na verdade, inversão de papéis, quando a luta central é por igualdade. E, igualdade, significa divisão de tarefas, ou seja, as duas pessoas envolvidas numa relação são responsáveis igualmente pelas tarefas do dia a dia.

Alguns outros pequenos abusos são retratados, mas acabam não tendo uma resolução. O marido, João, parece muitas vezes se sentir incomodado com a ausência de Alice, o que é compreensível, visto que ela trabalha bastante. Entretanto, ele parece sofrer com algum complexo de inferioridade e não consegue encontrar espaço no contexto familiar para o próprio sucesso profissional por conta do peso que o sucesso da mulher tem na relação deles.

De Pernas Pro Ar 3/Paris Filmes/ Reprodução

O problema é como isso é retratado. Diversas vezes, ele tenta diminuir as tentativas da personagem da Ingrid em ajudar o marido a se destacar. Ele repete incessantemente que ela “fala demais” ou que já “ajudou demais” e está “na hora de parar”. A relação é complicada, parece não haver mais espaço para um desenvolvimento saudável dos dois e, quando o roteiro parece nos levar a uma solução deste conflito no casamento, acabamos dando meia volta na história e todas as coisas “se acertam”. O tal do “empoderamento” que é retratado pelo fato da personagem ter encontrado a satisfação pessoal no trabalho (o fato é ilustrado em uma cena muito fofa entre Alice e sua filha fazendo uma analogia entre o trabalho e pipoca doce) fica à mercê de uma satisfação conjugal. Empoderamento, em seu sentido mais amplo, não significa “dar poder às mulheres”, e sim o de aprofundamento da democracia do ponto de vista individual e comunitário, onde as pessoas sejam protagonistas de suas vidas e projetos. Mas o que ocorre é que o filme apresenta o problema, mas define uma resolução conservadora. Alice deseja ter o direito de gostar das duas coisas, tanto do trabalho quanto da vida familiar, mas seu parceiro não se esforça em ver uma conciliação.

Pontos Positivos

Uma das únicas questões resolvidas é a temática da competição feminina. O longa retrata duas mulheres que lideram empresas de produtos sexuais. Alice vê Leona (Samya Pascotto) como rival no mundo dos negócios e também sente ciúmes de seu filho, Paulo (Eduardo Melo). Mas Leona é muito moderna e sabe que há espaço para as duas mulheres brilharem. Tanto que no final as duas conseguem até trabalhar juntas em um novo produto.

As duas atrizes dão um show de atuação e, praticamente, carregam o filme nas costas. A protagonista se encontra em um ponto de ter “zerado a vida” ainda em seus quarenta anos, por isso, ela se sente velha e ameaçada pela garota mais jovem que também trilha um caminho próprio. Apesar de servirem às ocasiões cômicas, essa temática serve de inspiração com sinceridade e inspiração – “isso é velho, não você”, diz Leona quando descobre os motivos das invejas da protagonista.

A disposição de uma comédia comercial como essa em abraçar a verdadeira identidade de sua protagonista seria algo digno de se comemorar por si só, mas De Pernas pro Ar 3 impressiona pela capacidade de oferecer uma comédia despretensiosa. As piadas, que são muitas, ganham efeito dentro de um contexto coerentemente estabelecido. Se não estão relacionadas com seus temas, são ao menos construídas com atenção no roteiro. Há bons usos de foreshadowing – a cadeira que o marido projeta no início do longa, a falta de memória de Alice quanto ao local de uma premiação e a realidade virtual são pontos construídos com recorrência.

De Pernas Pro Ar 3/Paris Filmes/Reprodução

Mas, ainda assim…

O filme reforça o formato da família e do amor romântico, as duas protagonistas estão o tempo todo se desculpando com seus parceiros por não lhe darem o tempo merecido. A culpa sentida pelas mulheres por não desempenhar uma função esperada pela sociedade e por seus companheiros as acompanha por todo o desenvolvimento da trama. O longa não inova, o que eles chamam de empoderamento feminino e liberdade sexual é um disfarce e enraizamento das bases patriarcais da nossa sociedade. Neste último filme, faltou coragem para acabar de vez com a imagem da boa “moça”.

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