O Rei Leão | Crítica

Mufasa e Simba no novo O Rei Leão live-action da Disney
O Rei Leão/Disney/Divulgação

O Rei Leão ou como recontar histórias afetivas para toda uma geração

Algumas pessoas dizem que existem histórias que moldam a nossa vida. Histórias que ouvimos quando crianças e acabam sendo tão marcantes que nós as levamos por toda a nossa existência. O Rei Leão, definitivamente, é uma dessas que marcou uma geração inteira, daí o problema e o risco que se corre em mexer com histórias tão afetivas.

O live-action segue, basicamente, a mesma linha narrativa que o desenho original, com pequenas mudanças quase imperceptíveis. No entanto, quando se transforma uma animação em live-action corre-se o risco de cair naquele vale da estranheza que já comentamos na adaptação de Pokémon: Detetive Pikachu.

Aqui, n’O Rei Leão chegou-se ao limite dessa estranheza. O diretor, Jon Favreau, havia dito que sua intenção com o longa era trazê-lo o mais próximo possível do real, com cenários reais e personagens animais que vivem na savana. Mas eu coloco a questão: como aproximar animais que falam da nossa noção de realidade?

Quando dirigiu Mogli, Favreau contava com uma personagem principal humana expressiva e algumas escolhas pontuais se caricatura e fisionomia animal, como do Rei Louie e de Baloo, para conseguir sustentar a dramaturgia e da graça. Neste novo longa, essa transição é mais problemática e não acontece de forma tão suave quando em Mogli. Antes de mais nada, o filme exige que seus animais de CGI realizem uma construção shakespeariana convincente, o que obviamente não funciona. A expressão de emoções e sensações fica a cargo da atuação do elenco escolhido para dublagem.

A pedra do rei no live-action O Rei Leão.
O Rei Leão/Disney/Divulgação

O Rei Leão depende completamente da nostalgia para funcionar. Só que, acima de tudo, investe em um primeiro deslumbre, destacando detalhes da natureza com uma riqueza de texturas e movimentos que foi impossível de ser representada na animação de 1994. Os travelings são realmente impressionantes, eles acontecem em um plano sequência mostrando os movimentos de um rato, o pelo do leão e um besouro que, ao encantar Simba com seu bater de asas, também hipnotiza o espectador com a riqueza da cena.

O diretor tem consciência da afetividade que envolve O Rei Leão, tanto que ao realizar mudanças mínimas toma o cuidado de não desmontar o contexto geral da narrativa. O texto é atualizado em algumas pequenas questões mais sensíveis, como quando Simba pergunta se todo o reino será seu e Mufasa responde que o reinado é uma responsabilidade de manter o frágil equilíbrio que há ali, e não uma posse simplesmente. A atualização é feita também em momentos mais leves, como na sequência que ocorre na floresta, agora, fazendo piadas autorreferentes.

Nala e Simba no live-action de O Rei Leão.
O Rei Leão/Disney/Divulgação

A seleção das canções é feita como muito cuidado na base do prestígio de Beyoncé e Donald Glover e as interpretações, no geral, não fogem muito dos arranjos do original. Durante o hino de Timão e Pumba, “Hakuna Matata”, a voz de Simba muda com Glover assumindo o papel de JD McCrary e é aí que algo muito positivo acontece: o personagem assume uma dimensão que estava faltando no original, Simba toma para si a responsabilidade da morte de Mufasa e isso retrata uma das lições mais importantes desta história que é enfrentar seu passado e lidar com a temática da morte. Para Simba, esses sentimentos implicam em sua autoconfiança e só pôde ser superado com o confronto da verdade durante o ataque para recuperar seu rei quando Scar confessa ter jogado o irmão no desfiladeiro.

Mufasa no live-action de O Rei Leão.
O Rei Leão/Disney/Divulgação

Outra personagem que sofreu leves atualização foi a da rainha Beyoncé, que conseguiu dar mais profundida para a leoa, transmitindo aspectos de bravura e independência na personalidade de Nala que não existia antes. Já Scar, de longe é o personagem mais assustador de todo O Rei Leão, ele é ardiloso e trama a morte de Mufasa com uma precisão impecável. A atuação de Chiwetel Ejiofor tem o trabalho de reinventar uma das performances mais icônicas da história e o roteirista Jeff Nathanson ainda adiciona algumas linhas-chave para explicar as motivações do vilão. “Be Prepard” cantada pelo tio shakespeariano repete o título da canção como uma espécie de mantra malicioso.

Beyoncé também contribui com um grande single, “Spirit”, sobre o retorno das protagonistas às terras do reino, que o irmão de Mufasa transformou em um deserto árido. A sequência de “I Can’t Wait To Be The King” do início do longa teve grandes alterações, o diretor fez um trabalho fantástico ao reimaginar a performance da canção fazendo referências à cena na animação, mas sem perder sua linha de realidade.

Timão, Pumba e Simba no live-acion de O Rei Leão.
O Rei Leão/Disney/Divulgação

Apesar de tudo o que já foi dito sobre as expressões dos animais, é inevitável elogiar o trabalho feito em Timão (Billy Eichner) e Pumba (Seth Rogen), eles representam a resistência, podem até não ser personagens perfeitas, porém, seguram a história passeando entre o antromorfismo e o cartunesco.

Atualizar, mas sem modificar

Por vezes, o filme imita religiosamente a cena do original da Disney, basicamente, frame por frame, como na apresentação inicial do bebê Simba com o extasiante canto Zulu inicial: “nants ingonyama bagithi baba!”. Claramente, a proposta aqui é atualizar, mas sem modificar. Tanto que o compositor Hans Zimmer não precisou mudar uma nota para essa sequência. E, por mais que existam inúmeros argumentos artísticos para isso, a resposta aqui pode ser soletrada em dólares, pois ninguém resiste quando uma novar versão de Hamlet sobe ao palco.

Polêmica

Não podemos deixar de comentar duas polêmicas que saltam aos olhos (e aos ouvidos). A primeira é uma pequena mudança que concerne ao fim de Scar: as hienas, que ouviram ele chamá-las de nojentas e afirmar a Simba que seu plano era mata-las, atacam o vilão logo depois da luta com o filho de Mufasa e, entendemos que Scar é morto assim. No entanto, isso implica na impossibilidade de uma sequência como a conhecemos, porque em O Rei Leão 2, as hienas e leoas, antigas aliadas do vilão, retornam para vingar sua morte.

A segunda polêmica foi a entrega do papel de Shenzi a uma atriz alemã de origem ugandense Florence Kasumba, única personagem com um sotaque diferente. Não que isso vá reacender a discussão sobre o Apartheid e a apropriação cultural que rondou a animação de 1994, mas quando isso não se explica narrativamente, é no mínimo estranho.

Por fim…

Os tempos são outros e a Disney consegue entregar um filme impressionante visualmente, mas que peca na dramatização dos animais e ao colocar o fardo da interpretação nas costas dos dubladores causando certo desconforto aos fãs tão apaixonados pela história original que trazia personagens que cativavam pela sua expressividade. Resta ao público aceitar o live-action de O Rei Leão pelo o que ele tem a oferecer de melhor, deixando de lado as estranhezas visualmente extravagantes.

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