Olhos que Condenam | Crítica

Olhos que Condenam da Netflix
Olhos que Condenam/Netflix/Divulgação

História real de jovens torturados e presos injustamente apresenta uma jornada de preconceito e desumanização social

Olhos que Condenam é uma série necessária que traz à tona a verdade que constrói as bases da nossa sociedade desde sempre. Trata-se de um relato dentre muitos outros que foram apagados ou esquecidos, não por acaso, mas para a manutenção da hierarquia que organiza esse sistema, submetendo muitos à margem para que poucos possam ganhar.

É um fato que a televisão tem certa fixação por casos policiais não resolvidos, usando figuras familiares para satisfazer um desejo de catarse coletiva através da justiça. Mas está minissérie se destaca. Olhos que Condenam não pode ser incluída neste mesmo pacote, em parte porque a direção de Ava Duvernay é conduzida pela empatia e não por vingança. A série nos leva a uma história de homens inocentes, mas que, aos olhos dos mecanismos de ‘justiça’ tradicionais, sempre serão vistos como culpados. O olhar atento sobre a polícia e para o sistema prisional americano (que pode muito bem ser traduzido para outros lugares, sobretudo, o Brasil) demonstra como estes instrumentos do Estado estão destinados a fracassar ao se tratar de cidadãos que foram colocados à margem.

Inicialmente, a narrativa é contada fazendo uso de um lirismo inocente cuja efemeridade é o ponto central. Logo, nós nos deparamos com jovens adolescentes se preparando para uma diversão casual com os amigos, entrando em uma multidão que os envolve enquanto caminham em direção a um parque.

O feitiço é quebrado em menos de 10 minutos de cenas, quando a polícia prende esses garotos por crimes que eles sequer sabem que aconteceram. Enquanto os policiais se deparam com um terrível estupro e, freneticamente, tentam resolvê-lo de qualquer forma, mesmo que deixem de lado o compromisso com a realidade dos fatos, os meninos que brincavam ali perto são escolhidos como culpados. Isso mesmo, escolhidos. Então, uma forma mais insidiosa de violência toma conta da história.

A violência física, psicológica, todos os abusos realizados por policiais marcam a disposição da série em ignorar o desconforto do espectador para a mesquinhez da verdade visceral. Linda Fairstein (Felicity Huffman), chefe de crimes sexuais em Manhattan, refere-se aos cinco meninos sob custódia como “animais” incessantemente, alegando que eles estavam “badernando” no mesmo local onde o crime ocorreu e isso faz deles culpados. Os cinco meninos são pressionados das mais diversas formas para realizarem confissões falsas que irão comprovar a história que a chefe do caso quer contar para o crime ocorrido. As ações para conseguir a confissão acontecem de forma arbitrária e tem como fator de desequilíbrio não só os policiais e a promotora, mas também a promotora de justiça da Procuradoria Distrital de Nova York, Elizabeth Lederer (Vera Farmiga), que faz parte do time que coleta os depoimentos e instrui os policiais sobre o que precisa ser registrado para que as informações tenham apelo para a condenação do júri.

O segundo episódio começa com o áudio de várias vozes descrevendo os males da cidade, culminando em um editorial de tabloide que imputa motivos de ódio e vingança aos meninos, ainda que nada tenha conseguido se provar. Olhos que Condenam tem objetivos sociais muito bem delineados, escancarando a realidade de inúmeras pessoas negras. No Brasil, além da precariedade do sistema carcerário, as políticas de encarceramento e aumento de pena se voltam contra a população negra e pobre. Dentre os 700 mil presos, 61,7 são negros.

Mesmo com as proporções que o crime retratado tomou, a série consegue ilustrar detalhes muito pequenos, como quando o pai de um dos adolescentes (Michael K. Williams) aconselha seu filho (Caleel Harris) a mentir para dar à polícia o que eles querem, sem perceber que o objetivo é punir acima de tudo. Uma vez na prisão, as limitações dos meninos são ainda maiores. Depois, eles lutam contra as marcas em seus registros, que os impedem de vidas funcionais, e as lutam também contra o trauma gravado em suas memórias.

Com tudo isso apresentado o incômodo dá o tom e não para de crescer, minuto a minuto, culminando com um dos diálogos mais doloridos que uma criança pode se submeter:

“Por que eles nos tratam assim?”.

“De que outra maneira eles iriam nos tratar?”.

Até Donald Trump, em imagens da época, aparece pedindo o retorno da pena de morte ao estado, algo que não acontecia desde 1963, e mostrando que seu conceito de compreensão humana sempre foi distorcido ao afirmar que os “negros têm muitos privilégios”.

Olhos que Condenam da Netflix
Olhos que Condenam/Netflix/Divulgação

Nas mais de duas horas que transcorrem até o final da minissérie, somos jogados dentro do vórtice que é estar preso, de famílias sem dinheiro, e de como o Estado – por meio de ferramentas de controle – leva a vida de um ex-presidiário para sempre. A possibilidade de reintegração social é quase impossível, algo que fica claro, quando um dos – agora – ex-presidiários comenta:

“Uma vez que eles te pegam, eles ficam com você”.

A parte final de Olhos que Condenam fecha o arco centrando a narrativa na trajetória de Korey Wise (Jharrel Jerome), que, por ter 16 anos na época do crime, é enviado para uma prisão comum. Sua trajetória dentro de toda a história é uma das mais chocantes, principalmente por causa do fator que o levou até a delegacia e então para a prisão.

Wise passa mais de onze anos cumprindo pena. Nesse processo perde o contato com a mãe e sofre com a impossibilidade de ter qualquer tipo de suporte financeiro da família, situação que não só retira sua liberdade, mas também inviabiliza – em uma fase complexa da vida – o contato com pessoas que ama e precisa.

Talvez pelo fato de se tratar de uma série e precisar demonstrar um final esperançoso, Olhos que Condenam encerra sua narrativa nos dando vislumbres do quinteto, agora homens, reencontrando a família – como no relacionamento desafiador e sempre em evolução de Korey com sua mãe (Niecy Nash) – e mantendo a crença em sua inocência.

Os ‘Cinco do Central Park’, como a história verídica ficou conhecida, tiveram o caso contra o Estado resolvido em 2014, um quarto de século após a noite no parque e depois de já terem cumprido suas penas. E Olhos que Condenam (“When They See Us”) corrige o registro, mesmo que não seja ingênuo o suficiente para acreditar que a reparação seria possível. No final da série, os títulos na tela nos informam que quatro dos cinco deixaram Nova York. E então: onde, além de um trabalho tão explicitamente projetado para representá-los como pessoas e não apenas vetores em um drama contínuo de raça e justiça, eles poderiam se sentir seguros novamente? Por isso, e muitas outras coisas, este é um registro necessário que tem a possibilidade de aproximar o público da narrativa imposta aos cinco jovens e causar, de alguma forma, o que obras artísticas precisas: revolta, reflexão e movimento, trata-se de ver, com calma e sem prejulgamentos, para gerar movimento.

Gamezeen is a Zeen theme demo site. Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Leia Mais
Victoria Pedretti confimada para a 2ª temporada
A Maldição da Residência Hill | Victoria Pedretti foi confirmada para a 2º temporada: The Haunting of Bly Manor