Stranger Things | Parece que pelo menos uma das personagens femininas foi um tiro certeiro

Robin de Stranger Things
Stranger Things/Netflix/Divulgação

Por mais que a série tente sair desse lugar comum construído para o feminino, suas tentativas acabam sempre muito forçadas e mais parecidas com um “fan service for females”.

ALERTA DE SPOILER: este post contém spoilers da terceira temporada de Stranger Things, esteja avisado!

Sempre que Stranger Things apresenta um novo personagem, é quase imediatamente óbvio qual arquétipo ele deve representar. Como um retrocesso deliberado aos blockbusters de 1980, que priorizavam emoções e piadas sobre a caracterização, quase todo mundo pode ser descrito em apenas algumas poucas palavras. Há heróis e bandidos, idiotas legais e nerds engraçados. Em três temporadas, o elenco principal evoluiu após suas descrições iniciais, mas quando se trata das personagens secundárias, estas parecem permanecer andando em círculos. Qualquer adição é geralmente retirada diretamente do elenco central. (Veja: Prefeito viscoso de Cary Elwes, que sorri sobre corrupção enquanto literalmente mastiga charutos.)

Então, quando Robin (Maya Hawke) entrou em cena na estréia da terceira temporada, um padrão familiar parecia emergir. Posicionada contra o rei do baile de formatura Steve “The Hair” Harrington (Joe Keery), Robin, inicialmente, é uma inteligente babaca completamente imune aos encantos de seu novo colega de trabalho – pelo menos, até que não seja mais. À medida que os dois se aproximam enquanto lutam contra os terríveis russos (naturalmente!), ambos relutantemente deixando seus instintos protetores derreterem quando estão um ao lado do outro, tornando-se um par de opostos atraentes – parece ser óbvio – até que não seja.

No penúltimo episódio, depois de insistir durante toda a temporada que ela nunca poderia ser seu tipo, Steve diz a Robin que tem uma queda por ela. Tudo o que estamos preparados para esperar – tanto de Stranger Things quanto do romance teen que rondou toda temporada 3 – faz parecer que este é o momento triunfante em que o cara legal finalmente abaixa a guarda, admite que a garota desajustada que passou despercebida por anos pode realmente ser a “garota certa” para ele, e eles partem para o pôr do sol. Mas em vez disso, enquanto ele continua listando todas as razões pelas quais ele gosta dela, a expressão de Robin desmonta. Acontece que Robin não quer Steve, porque ela quer qualquer outra pessoa com tanto que também seja uma garota.

Essa cena é uma das melhores que a série tem a oferecer, e não apenas porque Keery e Hawke saíram do parque. É ótimo porque é realmente surpreendente de uma forma que raramente acontece na série.

Stranger Things/Netflix/Divulgação

Como uma homenagem proposital a filmes de aventura que tendem a incluir apenas personagens femininos nas margens, não surpreendeu em nada que Stranger Things não soubesse o que fazer com as suas próprias. Embora os Irmãos Duffer soubessem o suficiente para incluir mulheres e meninas, eles ainda lutavam para encontrar maneiras de tornar as personagens distintas por seus próprios méritos, longe de um garoto ou homem que elas estivessem inextricavelmente ligadas. Mesmo quando interpretada pela icônica Winona Ryder, Joyce raramente foi mais do que uma mãe frenética. Mesmo quando aprendeu a ficar sozinha, Nancy (Natalia Dyer) serviu principalmente como ponto comum em um triângulo amoroso entre o pioneiro Jonathan (Charlie Heaton) e o cara legal Steve (Joe Keery). E embora seja uma maravilha telecinética, Eleven (Millie Bobby Brown) acabou sendo definida por seus relacionamentos com Mike (Finn Wolfhard) e Sheriff Hopper (David Harbour).

Por mais que a série tente sair desse lugar comum construído para o feminino, suas tentativas acabam sempre muito forçadas e mais parecidas com um “fan service for females”. A princípio pode até parecer empolgante ver várias mulheres tão poderosas, mas a questão que se coloca aqui é até que ponto isso é suficiente. Nós, queremos mulheres complexas, porque nós somos complexas como qualquer outro ser humano. Não é só colocar várias mulheres interagindo em uma cena e basta (vide cena em Vingadores: Ultimato – aliás, aqui está um vídeo muito interessante sobre o assunto), é preciso ir além.

Na 2 ª temporada, Stranger Things – depois de uma reação esmagadora por conta da personagem Barb (Shannon Purser) morrendo sem cerimônia – acabou percebendo que os fãs estavam com fome de ao menos um pedacinho de uma personagem feminina decente e fez o melhor para ajustar tudo isso. A introdução da nova garota, Max (Sadie Sink), foi uma tentativa bem-intencionada, mas desajeitada, de equilibrar os sexos na festa de Dungeons and Dragons. Os roteiros apenas se esqueceram de dar a ela uma personalidade muito além de ser “a outra garota”, especialmente quando a forçaram a uma rivalidade inexplicável com o Eleven. Foi frustrante, mas dado o compromisso da série em abraçar a todos, os tropeços também pareciam inevitáveis. A terceira temporada, para seu crédito, faz um trabalho real para desconstruir o vínculo entre Max e Eleven, também faz Nancy se comprometer com o jornalismo investigativo, e Joyce se levantar mais para o rolo compressor que é Hopper.

Contudo, parece que pelo menos uma das personagens femininas foi um tiro certeiro. Ainda é Robin quem acaba se libertando dos topos típicos do programa e fazendo com que a temporada valha a pena. Isso é em grande parte graças a Hawke e Keery, cuja química imediata prova que nem toda dinâmica interessante entre personagens masculinos e femininos precisa ser romântica, e provavelmente também o fato de que a sexualidade de Robin significa que ela não pode ser combinada com um personagem masculino da maneira que qualquer outra personagem feminina pode. Claro, ela e Steve estão claramente unidos no final da temporada (ela lhe garante um emprego na locadora local), mas sua amizade é um ponto único de inovação dentro da série. Robin desapontando Steve porque ela é gay – para não mencionar que ele rapidamente se recupera da sua paixão – é um desvio do roteiro habitual de pontos de referência que em outras épocas a série jamais abordaria. Mas Stranger Things é muito melhor por abraçar isso.

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